Substância não pode ser usada como agente alisante no Brasil e está associada a irritações, queimaduras, problemas respiratórios e câncer; consumidores devem verificar o produto antes de qualquer procedimento
O desejo de manter os cabelos lisos, alinhados e com aparência saudável faz parte da rotina de muitas mulheres e também de homens que procuram salões de beleza para realizar escovas progressivas, alisamentos e outros procedimentos. O problema aparece quando, para obter um resultado mais intenso ou duradouro, são utilizados produtos irregulares contendo formol (formaldeído) como agente alisante.
A questão não é apenas estética. O uso inadequado do formol pode representar um risco importante para a saúde tanto de quem recebe o produto quanto dos profissionais que trabalham diariamente com essas substâncias.
A Anvisa esclarece que formaldeído e glutaraldeído não podem ser utilizados como ativos para alisar cabelos. O formol possui outras utilizações cosméticas extremamente restritas, mas isso não significa que possa ser colocado em uma progressiva ou utilizado para produzir o efeito de alisamento.
O formol é proibido para alisar cabelos?
Sim. No Brasil, o formol não é permitido como agente alisante capilar.
Existe uma diferença importante: pequenas concentrações de formaldeído podem ter utilização autorizada como conservante em determinadas condições, mas isso é completamente diferente de adicionar formol a um produto com a finalidade de alisar os cabelos.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a legislação permite concentração de até 0,2% de formol como conservante em determinados produtos cosméticos durante sua fabricação. Entretanto, a adição de formol a um produto já pronto para produzir alisamento não é permitida.
A própria Anvisa informa que adicionar formol a produtos para alisamento constitui infração sanitária. A Agência também afirma que essa adulteração ou falsificação pode configurar crime previsto no artigo 273 do Código Penal.
Portanto, não se trata de uma simples recomendação que o salão pode escolher cumprir ou não. Existem regras sanitárias e consequências para quem comercializa ou utiliza produtos irregulares.
Quais problemas o formol pode causar?
Os efeitos dependem da concentração, da forma de exposição e da frequência do contato. Durante um alisamento, existe uma preocupação adicional porque o calor utilizado no procedimento pode favorecer a liberação de vapores.
Entre os problemas descritos pelas autoridades de saúde estão:
- irritação e vermelhidão do couro cabeludo;
- coceira e descamação;
- queimaduras químicas;
- feridas e ulcerações;
- queda e quebra dos cabelos;
- ressecamento e alteração dos fios;
- irritação e lacrimejamento dos olhos;
- lesões na córnea;
- ardência no nariz e na garganta;
- tosse;
- falta de ar;
- dor de cabeça;
- tontura;
- náuseas e vômitos;
- irritação das vias respiratórias;
- crises respiratórias em pessoas suscetíveis;
- bronquite, pneumonia ou laringite em exposições mais intensas.
A exposição repetida também merece atenção. O INCA classifica o formaldeído como carcinógeno para seres humanos, com evidências associando a exposição à ocorrência de câncer, incluindo câncer de nasofaringe e leucemia.
Isso não significa que toda pessoa que realizou uma progressiva desenvolverá câncer. O risco depende de diversos fatores, principalmente intensidade, concentração e duração da exposição. Mas significa que o produto não deve ser tratado como algo inofensivo.
O perigo também existe para quem trabalha no salão
Um ponto muitas vezes esquecido é o profissional que aplica o produto.
Quem trabalha diariamente em um salão pode ficar exposto repetidamente aos vapores liberados durante procedimentos químicos. Segundo o INCA, a exposição ocupacional ao formaldeído pode atingir principalmente as mucosas do nariz, as vias respiratórias superiores e os olhos.
Por isso, o problema não envolve somente a cliente que permanece algumas horas no salão. O cabeleireiro ou profissional que realiza diversos procedimentos ao longo do dia pode estar sujeito a uma exposição repetida.
Um exemplo que serve de alerta
Imagine uma cliente que chega a um salão e pergunta se a escova progressiva utilizada contém formol. O profissional responde que o produto é “forte”, que “alisa mais” e que o resultado será melhor.
Nesse caso, a cliente não deve simplesmente confiar na promessa.
Ela pode perguntar qual é o nome exato do produto, quem é o fabricante e qual é o número do processo de regularização na Anvisa.
A Agência orienta que os consumidores verifiquem se o alisante está devidamente regularizado. A existência de um produto no mercado, ou o fato de ele ser utilizado por determinado salão, não significa automaticamente que ele esteja autorizado.
Como saber se o produto é regular?
Antes de fazer um alisamento, o consumidor pode solicitar ao salão:
1. Nome do produto;
2. Fabricante;
3. Número do processo na Anvisa;
4. Composição e ativo utilizado;
5. Data de validade;
6. Orientações de utilização e advertências.
A Anvisa destaca ainda que os alisantes capilares precisam ser registrados. Produtos sem registro ou que estejam apenas notificados de forma inadequada podem estar irregulares.
E se o salão insistir em utilizar formol?
O consumidor não precisa aceitar o procedimento.
Em caso de suspeita de utilização irregular, a orientação é procurar a Vigilância Sanitária municipal ou estadual. A Anvisa também disponibiliza canais para comunicação de irregularidades e para relatos de eventos adversos relacionados a cosméticos.
Os salões de beleza são estabelecimentos sujeitos à fiscalização sanitária local, e estados e municípios podem estabelecer regras complementares para o funcionamento desses serviços.
O que fazer se houver reação depois do alisamento?
Se depois de um procedimento surgirem queimaduras, feridas, inchaço, forte irritação nos olhos, dificuldade para respirar ou outros sintomas importantes, a pessoa deve interromper a exposição e procurar atendimento médico.
Quando possível, é importante guardar a embalagem do produto utilizado. Isso pode ajudar o profissional de saúde e também facilitar uma eventual comunicação à Vigilância Sanitária ou à Anvisa.
A própria Agência recomenda que reações inesperadas sejam comunicadas e que o produto seja mantido para fornecer corretamente as informações necessárias.
A beleza não pode estar acima da saúde
A busca por cabelos lisos, redução de volume ou um resultado mais duradouro não deve colocar a saúde em segundo plano.
Existem ativos autorizados pela Anvisa para alisamento capilar, desde que presentes em produtos regularizados e utilizados de acordo com as condições estabelecidas. A lista oficial inclui diferentes substâncias, como ácido tioglicólico e seus sais, hidróxidos específicos, sulfitos e bissulfitos, entre outros.
Por isso, a orientação aos consumidores é simples: não aceite que o salão esconda o nome do produto ou sua composição.
Pergunte. Confira. Pesquise. E, diante de qualquer dúvida, procure a Vigilância Sanitária.
O direito à informação é também uma forma de proteção.
Orientação final às clientes e aos profissionais
Antes de qualquer progressiva ou alisamento, procure um estabelecimento regularizado, peça informações sobre o produto e confirme sua situação junto à Anvisa.
Não aceite a justificativa de que “todo salão usa”, “é só uma pequena quantidade” ou “nunca aconteceu nada”.
O fato de uma prática ser comum não significa que ela seja permitida ou segura.
E para os profissionais de beleza, o alerta é igualmente importante: além de proteger o cliente, é necessário proteger a própria saúde, evitando produtos irregulares e procedimentos que possam provocar exposição indevida ao formaldeído.
A Capital da Notícia reforça: cabelo bonito não precisa significar saúde colocada em risco.
Isaque Fernandes – A CAPITAL DA NOTÍCIA
Consultar orientações oficiais da Anvisa sobre alisantes capilares


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