Estado possui solos muito diferentes entre si, com áreas de alta fertilidade e outras que exigem correção, adubação e manejo adequado para produzir com eficiência
Por Isaque Fernandes – A CAPITAL DA NOTÍCIA
Quando se fala nas riquezas de Rondônia, normalmente vêm à cabeça a pecuária, o café, o cacau, a soja, o milho, o arroz, a produção de leite e tantas outras atividades que movimentam a economia do estado.
Mas existe uma riqueza que está literalmente debaixo dos pés de quem vive em Rondônia: a terra.
E essa terra não é igual em todo o território rondoniense.
Há regiões onde o produtor encontra solos naturalmente mais favoráveis à agricultura, profundos, argilosos e com boas características físicas. Em determinados locais aparecem as chamadas terras roxas, tradicionalmente valorizadas pela agricultura.
Em outras partes do estado, entretanto, predominam solos que podem apresentar acidez elevada, baixa fertilidade natural, deficiência de alguns nutrientes e limitações relacionadas à água ou à drenagem.
Isso explica uma situação conhecida por muitos produtores: duas propriedades relativamente próximas podem ter custos de produção muito diferentes, mesmo plantando a mesma cultura.
Rondônia tem terra boa?
Sim. E muita.
Mas é importante fazer uma correção: não existe uma única “melhor terra de Rondônia” que seja automaticamente superior para qualquer atividade agrícola.
A qualidade de um solo depende de vários fatores: fertilidade, textura, profundidade, drenagem, capacidade de armazenar água, relevo, matéria orgânica, acidez, disponibilidade de nutrientes e também da cultura que será plantada.
Estudos da Embrapa mostram que Rondônia possui uma grande diversidade de solos. Os Latossolos ocupam uma parcela expressiva do território, enquanto também aparecem Argissolos, Nitossolos, Cambissolos, Plintossolos, solos hidromórficos, areias e outras classes.
Portanto, quando um produtor pergunta “onde está a melhor terra?”, a resposta técnica precisa ser: depende do objetivo e da propriedade.
Onde estão algumas das terras mais férteis de Rondônia?
Historicamente, estudos da Embrapa identificam áreas de média e alta fertilidade em partes do centro e do sul do estado.
Regiões como Jaru, Ouro Preto do Oeste, Ji-Paraná e Presidente Médici aparecem em levantamentos como áreas com solos de média a alta fertilidade.
No Cone Sul, também existem importantes áreas com características favoráveis à produção agrícola. Em Colorado do Oeste, por exemplo, há registro de uma mancha de Terra Roxa Estruturada associada a Latossolo Vermelho-Escuro.
É importante, porém, não transformar essa informação em uma regra absoluta. Dentro de um mesmo município podem existir diferentes tipos de solo.
Uma propriedade pode ter uma área extremamente produtiva e, poucos quilômetros adiante, outra área com características completamente diferentes.
Afinal, o que é a famosa terra roxa?
A chamada terra roxa está associada a solos de coloração avermelhada ou arroxeada, geralmente ricos em óxidos de ferro e relacionados, em muitos casos, ao intemperismo de rochas básicas.
Na classificação atual, parte desses solos é enquadrada como Nitossolos Vermelhos.
São solos que podem apresentar boas condições físicas, textura argilosa ou muito argilosa e elevado potencial agrícola, principalmente quando apresentam boa fertilidade.
A Embrapa destaca que as Terras Roxas Estruturadas têm grande importância agrícola e que as formas eutróficas apresentam elevado potencial produtivo.
Mas existe um detalhe fundamental: terra roxa não significa automaticamente solo perfeito.
Mesmo uma terra considerada excelente precisa ser analisada. Pode haver necessidade de correção da acidez, reposição de nutrientes ou adoção de práticas para evitar erosão.
Por que existem terras tão diferentes dentro de Rondônia?
A explicação começa muito antes da chegada do agricultor.
O solo é resultado de um processo que leva milhares ou até milhões de anos.
A formação de um solo depende da combinação de fatores como:
material de origem;
clima;
relevo;
organismos vivos;
tempo;
circulação e disponibilidade de água;
ação da vegetação;
processos de erosão e deposição.
Em outras palavras, a terra que o produtor encontra hoje é resultado de uma longa história geológica e ambiental.
Rondônia está localizada em uma área muito diversificada do ponto de vista geológico e geomorfológico. Por isso, diferentes materiais deram origem a diferentes solos.
Em algumas áreas, a combinação entre material de origem, relevo e clima favoreceu a formação de solos argilosos e com características físicas bastante interessantes para a agricultura.
Em outras, o processo de formação produziu solos mais arenosos, ácidos ou naturalmente pobres em determinados nutrientes.
Por que a terra perto de Porto Velho pode exigir mais investimento?
Essa é uma pergunta importante para quem vive e produz na região.
Levantamentos da Embrapa apontam que áreas de Porto Velho, Guajará-Mirim e parte de Ariquemes apresentam predominância de solos ácidos, com baixos teores de bases trocáveis e fósforo disponível e presença elevada de alumínio trocável em algumas unidades de solo.
Em um estudo realizado em área experimental de Porto Velho, por exemplo, predominou o Latossolo Vermelho-Amarelo distrófico, além de Argissolo Vermelho-Amarelo e Plintossolo, com características de baixa fertilidade natural, acidez elevada e baixos níveis de fósforo disponível.
Isso ajuda a explicar por que determinados produtores da região precisam investir mais em correção e fertilização do solo antes de alcançar níveis elevados de produtividade.
Não significa que a terra seja “ruim” ou que não possa produzir.
Significa que ela exige outro tipo de manejo.
Terra fraca não significa terra condenada
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes para o produtor.
Um solo de baixa fertilidade natural não precisa ser abandonado.
Com conhecimento técnico, planejamento e manejo correto, muitas áreas podem melhorar significativamente sua capacidade produtiva.
A própria Embrapa possui estudos mostrando que a fertilidade natural é uma das principais limitações de boa parte dos solos de Rondônia, mas também apresenta técnicas de correção, adubação e recuperação.
Em levantamento citado pela Embrapa, aproximadamente 66,53% das terras tinham como principal limitação a fertilidade natural, enquanto 32,63% apresentavam média a alta fertilidade.
Isso demonstra que o desafio não está necessariamente na ausência de potencial, mas na necessidade de manejar corretamente o solo.
O primeiro passo é não gastar dinheiro no escuro
Para o produtor que trabalha em uma terra considerada fraca, o primeiro conselho é simples:
faça uma análise do solo.
Antes de comprar toneladas de adubo, calcário ou outros produtos, é preciso descobrir exatamente o que está faltando.
A análise permite identificar características como acidez e disponibilidade de nutrientes e ajuda a orientar a recomendação de calagem e adubação. A própria Embrapa Rondônia possui material técnico específico sobre coleta e análise de solo e sobre interpretação dos resultados para recomendação de corretivos e fertilizantes.
Isso pode representar uma economia significativa.
O produtor deixa de aplicar nutrientes de forma indiscriminada e passa a trabalhar de acordo com a necessidade real da área.
O calcário pode ser um grande aliado
Em solos muito ácidos, a correção da acidez é uma das ferramentas fundamentais.
A aplicação de calcário, quando indicada pela análise de solo e pela recomendação técnica, pode ajudar a elevar o pH, reduzir os efeitos da acidez e melhorar as condições para o desenvolvimento das plantas.
Mas existe uma regra importante:
não é simplesmente jogar calcário na terra.
A quantidade adequada depende da análise, do tipo de solo, da cultura, da profundidade de amostragem e de outros fatores.
Aplicar menos do que o necessário pode não corrigir o problema. Aplicar mais do que o recomendado também pode provocar desequilíbrios.
O fósforo também merece atenção
Em determinadas áreas de Rondônia, o fósforo pode ser uma das principais limitações para culturas anuais.
Experimentos da Embrapa realizados em diferentes regiões do estado encontraram o fósforo como uma importante limitação de produtividade em solos de Porto Velho e Vilhena.
Isso mostra novamente que não existe uma receita única para todo o estado.
O que funciona em uma propriedade pode não funcionar da mesma maneira em outra.
E quando o problema é falta de água?
Outro ponto precisa ser separado da fertilidade.
Uma terra pode ter nutrientes suficientes e, mesmo assim, apresentar problemas de produtividade por falta ou excesso de água.
Em períodos de estiagem, a disponibilidade de água passa a ser decisiva.
Por isso, sistemas de irrigação podem ser importantes em determinadas propriedades, principalmente quando existe viabilidade técnica e econômica.
Mas irrigação também não deve ser instalada simplesmente porque a produção está baixa.
Primeiro é preciso entender por que a produção está baixa.
Se o problema for acidez, a irrigação não resolve.
Se for falta de fósforo, colocar água não substitui o nutriente.
Se for compactação, é preciso tratar a estrutura física do solo.
Se for deficiência de matéria orgânica, o caminho será outro.
Matéria orgânica: uma riqueza que o produtor pode construir
Uma das ferramentas mais importantes para melhorar o solo é aumentar e conservar a matéria orgânica.
Palhada, restos culturais, cobertura permanente, adubação verde, rotação de culturas e sistemas integrados podem contribuir para melhorar a estrutura do solo e favorecer sua vida biológica.
Um solo bem manejado tende a apresentar melhores condições para infiltração e armazenamento de água, além de reduzir riscos de erosão.
Isso é especialmente importante em regiões onde o produtor enfrenta períodos de seca.
Plantar sempre a mesma coisa pode aumentar o problema
A agricultura moderna exige planejamento.
O plantio repetitivo da mesma cultura, sem manejo adequado, pode favorecer desequilíbrios nutricionais, aumento de determinadas pragas e doenças e perda da qualidade física e biológica do solo.
A rotação de culturas pode ajudar a diversificar o sistema.
Milho, soja, feijão, gramíneas, leguminosas, plantas de cobertura e outras culturas podem fazer parte de sistemas planejados de acordo com a realidade de cada propriedade.
O objetivo não é simplesmente plantar mais.
É produzir melhor e conservar o solo para o próximo ciclo.
E a integração lavoura-pecuária?
Outra possibilidade para algumas propriedades é a integração entre agricultura e pecuária.
Sistemas de integração lavoura-pecuária podem ajudar na recuperação de áreas degradadas, na produção de palhada e no aproveitamento mais eficiente da propriedade.
A técnica, porém, exige planejamento e acompanhamento técnico.
Não existe uma solução universal para todos os solos.
Qual região de Rondônia é melhor para plantar?
Se a pergunta for feita de maneira geral, estudos históricos apontam partes do centro e do sul de Rondônia como áreas com importantes ocorrências de solos de média e alta fertilidade.
Jaru, Ouro Preto do Oeste, Ji-Paraná e Presidente Médici aparecem entre as regiões tradicionalmente reconhecidas por solos mais favoráveis em determinados ambientes.
No Cone Sul, existem áreas agrícolas de grande importância, incluindo manchas de solos associados à antiga classificação de Terra Roxa Estruturada.
Já áreas de Porto Velho e Guajará-Mirim apresentam, em várias unidades, solos com limitações de fertilidade que podem exigir maior investimento em correção e adubação.
Mas seria um erro escolher uma propriedade apenas pelo nome do município.
O melhor terreno é aquele que combina solo adequado, água, relevo, acesso, logística, clima, infraestrutura e viabilidade econômica para a cultura escolhida.
O produtor precisa olhar para a terra como uma empresa
Um erro comum é avaliar somente o preço do hectare.
Uma terra aparentemente barata pode se tornar cara se exigir grandes investimentos todos os anos para produzir.
Por outro lado, uma propriedade com solo mais fértil pode apresentar um preço de aquisição maior, mas exigir menos investimento em determinados insumos e apresentar maior produtividade.
Por isso, antes de comprar uma propriedade rural, o produtor deveria considerar:
Qual é o tipo de solo?
Qual é a fertilidade?
Qual é a profundidade?
Como é a drenagem?
Existe água disponível?
Qual é o relevo?
Há risco de erosão?
Quanto será necessário investir em correção?
Qual cultura será plantada?
Essas respostas podem mudar completamente a conta.
A riqueza de Rondônia está também na diversidade
Talvez a grande riqueza das terras de Rondônia esteja justamente na sua diversidade.
O estado não possui apenas um tipo de solo.
Há terras mais férteis, terras que precisam de correção, solos argilosos, solos arenosos, áreas sujeitas a excesso de água e regiões que respondem muito bem ao manejo adequado.
Isso significa que Rondônia não precisa de uma única receita agrícola.
Precisa de conhecimento.
O produtor que conhece sua terra consegue tomar decisões melhores.
E esse conhecimento começa pela análise do solo.
O futuro da agricultura rondoniense depende de conhecer o chão
A agricultura não começa na semente.
Começa no solo.
Antes de escolher a variedade, comprar fertilizante ou preparar a máquina, é preciso entender aquilo que está embaixo da plantação.
Uma terra naturalmente fértil é uma vantagem.
Uma terra de baixa fertilidade não significa necessariamente prejuízo.
O que muda o resultado é o conhecimento sobre o que o solo precisa, quanto precisa e quando precisa.
Com análise, correção adequada, cobertura do solo, matéria orgânica, rotação de culturas, conservação da água e acompanhamento técnico, áreas que apresentam limitações podem se tornar muito mais produtivas.
O grande desafio do produtor rondoniense, portanto, não é apenas encontrar a chamada “terra roxa”.
É aprender a produzir de maneira eficiente no solo que possui.
Porque a verdadeira riqueza da terra não está somente na sua cor.
Está naquilo que ela consegue produzir quando recebe o manejo certo.
Isaque Fernandes – A CAPITAL DA NOTÍCIA
www.acapitaldanoticia.com.br


.gif)

0 Comentários