Técnica criada no Ceará já foi testada em pacientes e agora entra em uma nova fase, com previsão de produção industrial; mas ainda não é correto dizer que a pele de tilápia já está liberada para uso em todos os hospitais públicos do país
Por Isaque Fernandes, repórter do site A Capital da Notícia
Uma história que durante muito tempo pareceu coisa de ficção científica está cada vez mais perto de se transformar em uma alternativa real para o tratamento de queimaduras no Brasil: o uso da pele da tilápia como curativo biológico.
E aqui está a primeira resposta importante: não é fake news.
A técnica existe, foi desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC), passou por estudos laboratoriais, testes pré-clínicos e estudos em seres humanos. Mais de 300 vítimas de queimaduras já haviam sido tratadas com a técnica no Ceará, segundo informações divulgadas pela própria universidade. Mais recentemente, a Sociedade Brasileira de Queimaduras informou que o número de pacientes tratados em projetos de pesquisa já ultrapassava 700.
Mas existe uma segunda resposta igualmente importante: a pele de tilápia ainda não pode ser apresentada como um tratamento que já esteja disponível normalmente em todos os hospitais do SUS.
Esse detalhe é fundamental para não transformar uma descoberta científica verdadeira em uma promessa exagerada.
A novidade, porém, ganhou força em agosto de 2026. A UFC informou que a tecnologia está avançando para a produção em escala industrial no Ceará, com uma fábrica planejada em Jaguaribara, município próximo ao Açude Castanhão, uma importante região produtora de tilápia.
De onde surgiu essa ideia?
A pesquisa começou no Ceará em 2015, dentro do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM), da Universidade Federal do Ceará, em parceria com instituições ligadas ao atendimento de pessoas queimadas.
A ideia inicial era simples e, ao mesmo tempo, revolucionária: aproveitar uma matéria-prima que normalmente seria descartada — a pele da tilápia — e transformá-la em um material capaz de proteger uma ferida e ajudar o próprio organismo a reconstruir a pele.
Os pesquisadores descobriram que a pele da tilápia-do-Nilo possui características interessantes para essa finalidade, principalmente uma quantidade elevada de colágeno tipo 1, proteína importante para a estrutura e reparação dos tecidos. Estudos também identificaram características físicas e estruturais que favorecem sua utilização como biomaterial.
O material, entretanto, não é simplesmente retirado do peixe e colocado sobre uma pessoa.
Existe todo um processo de preparação, tratamento, esterilização e controle sanitário antes que a pele possa ser utilizada em pesquisas ou procedimentos.
Como funciona a pele de tilápia?
A pele preparada funciona como uma espécie de curativo biológico.
Ela é colocada sobre a área queimada e pode aderir ao leito da ferida. A intenção é proteger o local, reduzir a perda de líquidos, diminuir a necessidade de trocas frequentes de curativo e criar condições favoráveis para a cicatrização.
Essa é uma das grandes diferenças em relação a alguns métodos tradicionais.
Em muitos serviços públicos, o tratamento convencional ainda utiliza curativos associados a medicamentos, como a sulfadiazina de prata, exigindo trocas que podem ser bastante dolorosas para o paciente.
A pesquisa da UFC aponta que a pele de tilápia pode diminuir a dor, reduzir a frequência das trocas e contribuir para o processo de cicatrização.
Isso significa algo muito importante para quem sofre uma queimadura: menos manipulação da ferida pode significar menos sofrimento durante o tratamento.
A técnica já foi testada em seres humanos?
Sim.
Esse é outro ponto que diferencia a descoberta de uma simples experiência de laboratório.
Os estudos começaram com etapas pré-clínicas, incluindo pesquisas sobre a composição da pele, resistência, microbiologia, segurança e comportamento do material.
Depois vieram os estudos em seres humanos.
A UFC informa que os primeiros testes clínicos com pacientes queimados foram realizados no Instituto Dr. José Frota (IJF), em Fortaleza, depois das etapas de pesquisa e aprovação ética necessárias.
Também existem estudos clínicos envolvendo a pele de tilápia liofilizada. Um estudo registrado no Repositório Institucional da UFC avaliou 24 adultos com queimaduras superficiais de segundo grau, comparando o material com espuma de prata.
Portanto, não estamos falando de uma ideia sem comprovação alguma.
Estamos falando de uma tecnologia médica brasileira que vem sendo estudada há mais de uma década.
Então por que ela ainda não está em todos os hospitais?
Essa talvez seja a pergunta mais importante de toda essa história.
A resposta está em uma palavra: regulamentação.
Na medicina, descobrir uma tecnologia e provar que ela pode funcionar não significa que ela possa imediatamente ser vendida e utilizada em larga escala.
Antes de chegar ao uso rotineiro, principalmente dentro da rede pública, é necessário cumprir uma série de exigências sanitárias, técnicas, industriais e regulatórias.
A própria Sociedade Brasileira de Queimaduras explica que os pacientes tratados atualmente com a pele de tilápia liofilizada estão inseridos em projetos de pesquisa e que a comercialização depende do registro do produto na Anvisa.
Ou seja: a ciência avançou mais rápido do que a produção industrial e a regulamentação comercial.
E agora existe uma fábrica?
Sim.
E essa é provavelmente uma das maiores novidades de 2026.
A UFC informou em agosto deste ano que a tecnologia foi licenciada para uma empresa e está avançando para a construção de uma unidade industrial em Jaguaribara, no Ceará.
Hoje, segundo a universidade, a produção ainda é limitada, chegando a aproximadamente 600 unidades por mês nos laboratórios do NPDM.
Na fábrica, a previsão inicial é alcançar cerca de 4,3 mil unidades por dia, com possibilidade de expansão para uma produção ainda maior.
Outras informações divulgadas sobre o projeto apontam que a capacidade poderá chegar a aproximadamente 12 mil unidades por dia em uma etapa posterior.
É justamente essa produção em escala que pode mudar completamente a história.
Quando o tratamento poderá chegar ao SUS?
É preciso ter cuidado com essa resposta.
Ainda não existe uma data garantida para dizer que a pele de tilápia estará disponível em todos os hospitais públicos brasileiros.
A fábrica é uma etapa fundamental, mas não é a última.
Depois da produção industrial, o produto ainda precisa cumprir as exigências sanitárias e regulatórias aplicáveis, inclusive aquelas relacionadas à Anvisa. A própria divulgação do projeto deixa claro que a comercialização dependerá do cumprimento dessas exigências.
Portanto, dizer que "a pele de tilápia já foi aprovada para todos os hospitais do SUS" seria exagero.
Dizer que a tecnologia está avançando para se tornar um produto médico produzido em escala e que poderá chegar à rede pública é muito mais correto.
A tilápia é proibida de ser criada em tanques no Brasil?
Não. Essa afirmação, da forma como está sendo apresentada, é falsa.
A tilápia é criada comercialmente no Brasil.
O próprio governo federal reconhece a tilápia-do-Nilo como espécie introduzida na aquicultura brasileira.
O que existe é uma série de regras ambientais e sanitárias para a criação de espécies exóticas, porque a tilápia não é uma espécie nativa brasileira.
A legislação estabelece, por exemplo, que quem cria espécies exóticas precisa impedir que os peixes escapem para ambientes naturais. A Lei nº 11.959/2009 determina essa responsabilidade ao aquicultor.
Também existem diferenças entre as legislações estaduais.
Portanto, não se deve confundir restrições ambientais, necessidade de licenciamento ou regras específicas para determinados sistemas de cultivo com uma proibição nacional da criação de tilápia.
Inclusive, em novembro de 2025, o próprio Ibama publicou informação esclarecendo que era falso dizer que o cultivo de tilápia seria proibido no Brasil.
E existe uma relação entre a criação da tilápia e o tratamento de queimaduras?
Existe uma relação econômica muito interessante.
A indústria de pescado utiliza principalmente a carne do peixe. A pele, em muitos casos, acaba sendo descartada.
A pesquisa cearense encontrou uma maneira de transformar esse material que poderia ser resíduo em uma matéria-prima para a área da saúde.
É um exemplo de economia circular: aquilo que antes seria descartado pode ganhar valor e ser transformado em um produto médico.
No Ceará, essa relação é ainda mais evidente porque Jaguaribara fica próxima ao Açude Castanhão, região importante para a produção de tilápia.
O que torna a pele do peixe tão interessante?
A resposta está principalmente no colágeno.
A pele da tilápia apresenta grande quantidade de colágeno tipo 1, além de características de resistência e elasticidade que chamaram a atenção dos pesquisadores.
O colágeno é uma das proteínas fundamentais da estrutura da pele humana.
A ideia, portanto, não é que a pele do peixe "vire pele humana".
O que acontece é diferente.
Ela funciona como um biomaterial temporário, servindo como cobertura da lesão e oferecendo um ambiente favorável ao processo de reparação do tecido.
É uma espécie de enxerto?
É preciso fazer uma distinção.
A pele de tilápia pode ser utilizada como xenoenxerto ou curativo biológico, dependendo da aplicação e do protocolo.
Ela não significa que o paciente esteja recebendo uma nova pele definitiva de peixe.
Em determinados casos, ela serve como uma cobertura temporária da ferida enquanto o organismo cicatriza ou enquanto outras etapas do tratamento são realizadas.
Por isso, ela não elimina automaticamente a necessidade de cirurgia ou de enxerto de pele humana em todas as queimaduras.
Cada caso precisa ser avaliado por uma equipe especializada.
Serve para qualquer queimadura?
Também não.
Essa é outra informação que precisa ser deixada muito clara.
A técnica não deve ser apresentada como uma solução universal para qualquer queimadura.
Os estudos envolvem determinadas profundidades, extensões e condições clínicas.
Queimaduras extensas, profundas ou que atingem regiões específicas do corpo podem exigir procedimentos complexos, inclusive cirurgia, reposição de líquidos, controle de infecções, enxertos e acompanhamento intensivo.
A pele de tilápia pode representar mais uma ferramenta no arsenal da medicina, e não necessariamente substituir todos os tratamentos existentes.
Por que essa tecnologia demorou tanto?
Essa pergunta é justa.
A pesquisa começou em 2015.
Já estamos em 2026.
São aproximadamente 11 anos de desenvolvimento científico.
Mas existe uma diferença enorme entre ter uma ideia e colocar milhões de unidades de um produto médico em hospitais.
Primeiro é preciso descobrir se funciona.
Depois, verificar se é seguro.
Depois, estudar como esterilizar.
Depois, estudar como conservar.
Depois, testar em animais quando necessário.
Depois, realizar estudos clínicos.
Depois, analisar os resultados.
Depois, desenvolver um método industrial.
Depois, criar uma cadeia de fornecimento.
Depois, cumprir exigências sanitárias.
Depois, registrar o produto.
E, finalmente, conseguir produzir em quantidade suficiente e a um preço que permita sua utilização em larga escala.
Esse caminho pode parecer lento, mas existe uma razão: um erro em um medicamento ou dispositivo médico pode colocar vidas em risco.
E existe outro problema: escala
Imagine a quantidade de queimaduras que acontece em um país continental como o Brasil.
Não basta provar que a pele de tilápia funciona.
É necessário ter peixe suficiente, matéria-prima padronizada, transporte, processamento, esterilização, embalagem, armazenamento, controle de qualidade e distribuição.
É justamente por isso que a construção de uma fábrica representa uma mudança tão importante.
A tecnologia deixa de depender apenas de um laboratório universitário e começa a entrar no caminho da produção industrial.
A liofilização pode ser outra revolução
Uma das versões mais promissoras do produto é a pele de tilápia liofilizada.
A liofilização é um processo de retirada da água do material para aumentar sua estabilidade e facilitar armazenamento e transporte.
Segundo informações da Sociedade Brasileira de Queimaduras, essa tecnologia pode reduzir significativamente os custos de transporte porque o produto pode ser mantido em temperatura ambiente, diferentemente de versões que necessitam de refrigeração.
Isso pode ser particularmente importante para um país como o Brasil.
Imagine um produto produzido no Ceará que possa ser transportado com mais facilidade para Rondônia, Amazonas, Acre, Pará, São Paulo, Rio Grande do Sul ou qualquer outro estado.
Essa logística pode fazer diferença na possibilidade de atendimento de pacientes em regiões distantes dos grandes centros.
O Brasil pode estar diante de uma revolução?
Pode.
Mas é preciso usar a palavra "revolução" com responsabilidade.
A pesquisa brasileira já produziu resultados importantes e abriu uma linha de investigação que vai muito além das queimaduras.
A UFC informa que os estudos com pele de tilápia também avançaram para aplicações em feridas, úlceras, medicina veterinária e outras áreas da medicina regenerativa.
A possibilidade de transformar uma matéria-prima abundante em um biomaterial médico também apresenta uma oportunidade econômica.
O Brasil pode deixar de apenas produzir tilápia para alimentação e passar a aproveitar também um de seus subprodutos para produzir tecnologia médica.
E o que falta para a verdadeira revolução?
Falta transformar ciência em política pública e produção em acesso.
Não basta uma universidade desenvolver uma tecnologia brilhante.
É preciso que exista investimento contínuo em pesquisa, indústria, infraestrutura, regulação e compra pública.
Também é necessário que hospitais especializados sejam preparados para utilizar corretamente a tecnologia e que os profissionais recebam treinamento.
E, principalmente, que o produto consiga chegar ao paciente pelo preço adequado.
A demora significa que a pesquisa foi abandonada?
Não.
Pelo contrário.
A informação mais recente indica que a pesquisa está entrando em uma fase decisiva.
Em agosto de 2026, a UFC anunciou que a tecnologia avançou para a construção de uma unidade industrial no Ceará.
Isso mostra que uma pesquisa iniciada há mais de uma década está tentando vencer justamente o maior obstáculo: sair do laboratório e chegar à produção em larga escala.
Então, afinal, é verdade ou fake news?
É VERDADE que a pele da tilápia pode ser utilizada como curativo biológico e vem sendo estudada e aplicada experimentalmente no tratamento de queimaduras.
É VERDADE que a tecnologia foi desenvolvida no Ceará por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará.
É VERDADE que pacientes já foram tratados com o material em projetos de pesquisa.
É VERDADE que a tecnologia está avançando para uma etapa de produção industrial.
É VERDADE que existe um projeto de fábrica em Jaguaribara, no Ceará.
Mas seria FAKE NEWS ou, no mínimo, uma informação enganosa, afirmar que a pele de tilápia já está liberada e disponível em todos os hospitais do SUS.
Também é incorreto afirmar que a produção de tilápia em tanques é proibida em todo o Brasil.
A situação real é muito mais interessante: o Brasil possui uma pesquisa científica desenvolvida aqui, com resultados em seres humanos, que agora busca vencer as barreiras regulatórias e industriais para chegar a milhares de pacientes.
Uma esperança para quem sofre com queimaduras
Queimaduras não são apenas uma lesão momentânea.
Dependendo da gravidade, podem deixar cicatrizes, limitações físicas, problemas psicológicos e consequências que acompanham o paciente durante toda a vida.
E o tratamento pode ser doloroso, demorado e caro.
Por isso, uma tecnologia capaz de diminuir a dor, reduzir a frequência de trocas de curativos, proteger a ferida e ajudar na cicatrização merece atenção.
A pele da tilápia não deve ser tratada como milagre.
Também não deve ser apresentada como substituta automática de todos os tratamentos existentes.
Mas tampouco deve ser tratada como uma história fantasiosa.
Ela é resultado de uma pesquisa científica brasileira real, desenvolvida durante mais de uma década, e que agora pode estar chegando ao momento mais importante de sua trajetória: transformar uma descoberta de laboratório em um produto produzido em escala e, futuramente, disponibilizado aos hospitais brasileiros.
Se as etapas regulatórias, industriais e sanitárias avançarem como previsto, o que hoje é uma tecnologia desenvolvida no Ceará poderá, nos próximos anos, chegar a pacientes de diferentes regiões do país.
E talvez essa seja a parte mais impressionante de toda essa história: um peixe criado para chegar à mesa pode também fornecer uma matéria-prima capaz de ajudar a reconstruir a pele de uma pessoa gravemente queimada.
A ciência brasileira encontrou valor onde antes havia apenas descarte.
Agora, o grande desafio é fazer essa inovação chegar a quem mais precisa.
Isaque Fernandes
Repórter do site A Capital da Notícia


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